Amón: _ Tu, neste momento e como inventor da escrita, esperas dela, e com entusiasmo, todo o contrário do que ela pode vir a fazer.
Thoth: _ Ó Rei, que idéias guardam tuas palavras?
Amón: _ Acaso crês, realmente, que mais sábio se tornará o homem apenas por valer-se de um manuscrito? Penso que a tua invenção mais corrobora para a acomodação do pensamento e da atitude, já que, ao apoiar-se em um registro, o homem liberta-se do compromisso com a sua própria memória.
Thoth: _ Respeitosamente, caro Rei, minha intenção ao inventar a escrita é a de homenagear a memória de todos os indivíduos do teu Reino.
Amón: _ Embora tuas palavras me intriguem, que “mágica” pretendes apresentar para que a memória de todo o meu vasto reino caiba numa folha de papel, por exemplo?
Thoth: _ Ó, sábio Rei...Distante do meu objetivo está iludi-lo de alguma forma. Pretendo, sim, compartilhar uma riqueza que, através desta boa nova, representa a perpetuação não somente de uma história, a nossa, mas de tantas outras que com ela coexistem. Com a possibilidade de registrar todo o tipo de conhecimento desenvolvido por intermédio destes sinais gráficos, almejo que a sabedoria esteja acessível a todos de modo que cada pessoa possa não apenas desfrutar desse conhecimento proporcionado pela escrita, mas também realizar novas descobertas, agregando outros sentidos a ela.
Amón: _ Interessante o que me explanas. Porém, devo ainda questionar se a escrita por si só possa realizar tão solene tarefa, pois nossos alunos terão uma grande demanda de informação para dar conta, mas serão carentes de sabedoria. Afinal, o que pensas mais valer a um semeador: um barril cheio de grãos úmidos e putrificados ou um saco de sementes secas e com brotos?
Thoth: _ Ó, Rei dos Reis. Demonstras através desse exemplo toda a tua sabedoria. Ele é tão belo que dele farei uso para refletirmos juntos sobre o assunto. É possível que uma semente jogada a esmo, em um solo despreparado, germine sem o devido tratamento e cuidado?
Amón: _ Certamente que não!
Thoth: Pois bem, não poderíamos, assim, inferir que os grãos são como os escritos, os semeadores são como os mestres, professores-filósofos que se deliciam com a sinceridade e a entrega de um possível “seguidor”, e que a terra na qual cada palavra será plantada bem poderia representar esse pupilo?
Assim, um bom semeador prepara o solo que irá acomodar os seus grãos para que eles resultem, após longo período de dedicação, em belas e vastíssimas plantações, às quais, no futuro, proporcionarão ainda grandes colheitas e delas outros grãos surgirão sempre, semeando novos solos, cada vez mais férteis.
Amón: _ Parece-me, meu bom amigo, que agora vislumbro a beleza e a singular finalidade do teu invento.
Thoth: _ Teu elogio como “sentença”, ó Rei, sinaliza, sim, a beleza maior advinda da arte que proponho. Sem percebermos a escrita já está aqui. Ela abençoa nossos discursos, relacionando-os. Com a escrita e por ela aproximei-me de ti, amigo, e, em ti, finalmente, percebi a receptividade tão esperada. Ó, Deuses, abençoem o registro desse encontro de almas. Fortaleço tal súplica, mas como alguém que tem a certeza da dádiva alcançada, pois, certamente, agora, num tempo distante daqui, um mestre (professor) está ao lado de seus discípulos (alunos) lendo.
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