Minha mãe é professora, é minha mestra. Lembro-me de que quando ela estava cansada, eu, ainda criança, a auxiliava na preparação da aula seguinte. Numa ocasião dessas, ela parou um instante com seus afazeres e notei que me fitava profundamente. Ignorei. Ela, insistindo com o olhar, disse: “eu não queria, mas tu leva jeito”. Na época, achei graça no comentário. Hoje, enxergo através dele muitos outros significados.
No ano de 2005, prestei vestibular para os Cursos de Letras, no UniRitter, e Pedagogia da Arte/Habilitação em Dança, na UERGS. Ambos sempre me atraíram, antes de mais nada, porque são ARTE. Afinal, ela sempre foi muito marcante na minha vida, fazendo da sensibilidade a tatuagem mais expressiva do meu ser. Sapatilhas de Ballet já estiveram em meus pés, bonés, tênis "surrados" já serviram como principal adorno no Street Dance, castanholas já foram “carretilhadas” pelos meus dedos e, em todas essas inesquecíveis fases da infância à maturidade, a caneta e o papel sempre estiveram presentes.
Quando vi o meu nome na lista de aprovados da prova específica em dança (http://www.fundatec.com.br/home/concursos/VESTIBULAR_2005_PROVAS_ESPECIFICAS.pdf), explodi de tanta euforia, pois não foi nada confortável elaborar uma coreografia e apresentá-la aos jurados que, depois do solo, pediam: uma dança improvisada, de acordo com as expressões e sentimentos que eles indicavam; a reprodução de uma sequencia de Ballet Contemporâneo dada no próprio teste e, como se não bastasse tanta pressão, reservavam um tempo para uma entrevista. Até hoje, sinto-me, além de orgulhosa, muito gratificada por ter tido a oportunidade de passar, literalmente, por essa experiência, já que foi a primeira vez que me submeti a um teste de audição, mas não qualquer teste, um que me conduzia ao meu grande sonho de ser uma bailarina profissional e ministrar aulas de dança. Agora, eu tinha o passe livre para prestar o vestibular na área. No entanto, na mesma época em que obtive a aprovação em Letras, soube que não havia passado na prova regular do processo seletivo para ingressar no curso de Dança. Já estava conformando-me com a idéia, quando recebo a notícia, por telefone, de que eu era a primeira suplente do vestibular e que, se quisesse a vaga, tinha 24h para decidir, levar a documentação até Montenegro e efetuar a matrícula. Certamente, esse foi um grande momento da minha vida, um momento de escolha. Foi um dia muito difícil, confuso, afinal, eu teria de decidir entre duas das minhas grandes paixões: Letras e Dança. Enfim, quem sabe por instinto, digamos, mais racional inicialmente, Letras prevaleceu. Tenho a sensação de que a vida sempre me presenteou com sinais que, de uma forma ou de outra, levar-me-iam a trilhar esse caminho. Já na primeira semana de aula, mais um sinal a vida enviou-me por intermédio de um comentário, pequeno na estrutura, mas grandioso no sentido. Veio acompanhado de um texto que havia produzido. Jamais esquecerei das palavras ali impressas, elas foram como um bálsamo a aliviar-me, a transmitir-me que eu estava no lugar onde deveria estar. Naquele dia, era tudo o que eu precisava ouvir, ou melhor, ler. A partir disso, pude recordar de tantos outros incentivos que recebi e que somados a esse tornaram-se ainda mais intensos, fazendo com que a segurança em mim e na minha escolha pudessem ser despertadas. Já naquela época sentia realmente que estava trilhando o caminho que me conduziria a grandes aprendizados, realizações, conquistas. Sentia que nele eu podia ser o que quisesse.
Com “as Letras” realizei o meu maior sonho: cursar uma Universidade e estou concretizando outro: cursar o Mestrado Acadêmico em Letras, como Bolsista CAPES, um presente Divino! Penso naqueles que assim como eu idealizam esse projeto, mas que, infelizmente, por imposição da vida, isso ainda não lhes foi possibilitado vivenciar. Refletir me dá coragem, ânimo, para persistir frente aos meus próprios desafios. Sei que estou a cometer muitos clichês, mas peço que sejam perdoados, pois “ter chegado até aqui já faz com que me sinta uma vencedora em muitos aspectos” e isso me emociona todos os dias. Acredito, sinceramente, que todos nós temos o nosso lugar especial no Mundo e que ele se descortina, também e principalmente, no momento oportuno. Devido a essa convicção é que hoje percebo que não é mais necessária a dor de optar. Hoje, entendo que o curso de Letras foi o primeiro passo, o pioneiro constante que, a partir de agora, será acompanhado pelos seguintes com os quais a dança irá sincronizar.
Dessa forma, dedico este blog, especialmente, às bailarinas Advogadas, Médicas, Veterinárias, Engenheiras, enfim, de todas as áreas do conhecimento que, por algum motivo, ainda não puderam arrebatar o seu amor pela dança plenamente como sempre almejaram. Eis aqui uma “Bailarina das Letras”, ensaiando os seus “primeiros passos” rumo à conquista desse sonho, uma bailarina que não se preocupa mais com os ponteiros nem com as badaladas do tempo, tão pouco com os requisitos que a sociedade impõe para determinar quem terá sucesso ou não, que não se deprecia, por exemplo, por não possuir o status “bailarina desde bebê”. Não, porque isso seria redução, injustiça! Afinal, o que é uma única vida para quem acredita na existência eterna da alma? E a minha, com a certeza ditada pelo coração, dança!
Neste blog, meus caros, serão compartilhados poemas, pensamentos, canções, eventos e pesquisas pertinentes a Letras e à Dança. Assim, cada visitante poderá acessar os conteúdos de seu interesse, conforme suas afinidades. No final, creio, todos serão envolvidos pelo magnetismo de ambas as áreas, pois irão descobrir que a Dança pode narrar e as Letras podem dançar, celebrando a arte através de um fascinante/contagiante dueto! Vamos bailar?!
