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fevereiro 21, 2012

CAP. II - CRIAÇÃO IDEOLÓGICA E DIALOGISMO


No capítulo segundo, da obra Linguagem e Diálogo: as idéias lingüísticas do Círculo de Bakhtin, intitulado Criação Ideológica e Dialogismo, Faraco retoma a significativa representatividade dos três intelectuais russos: Bakhtin, Voloshinov e Medvedev para a ilustração do pensamento do Círculo.  
Primeiramente, o autor elucida sobre o conceito de ideologia para o grupo. Segundo ele, essa palavra é utilizada para designar o universo dos produtos do “espírito” humano (que engloba as manifestações superestruturais, como a arte, ciência, filosofia), também reconhecido como cultura imaterial ou produção espiritual; e de formas da consciência social. Por isso, explica que não se deve conceber os termos ideologia, ideologias, ideológico, nos textos do Círculo, de forma restrita e negativa.
Em seguida, enfatiza que o enunciado é, para eles, sempre ideológico (axiológico) em duas direções: dá-se na esfera de uma ideologia e expressa um posicionamento social avaliativo, portanto, isento de neutralidade. Logo, o ideológico é um signo e de natureza semiótica o seu universo, identificação que servirá de fundamento para a construção da teoria materialista (filosofia da cultura). Nesse sentido, Faraco salienta que, para o Círculo, “Os signos emergem e significam no interior de relações sociais, estão entre seres socialmente organizados; não podem, assim, ser concebidos como resultantes apenas de processos fisiológicos e psicológicos de um indivíduo isolado ou determinados apenas por um sistema formal abstrato”. (p.48).
Tendo em vista a premissa de que o sujeito não possui relações diretas com a realidade, o autor explica que os signos refletem e refratam o mundo simultaneamente. Refração, esclarece, é a maneira como se dão, no signo, as diversidades e divergências provenientes das experiências entre os seres em sociedade, as quais, por serem múltiplas e heterogêneas, conferem ao signo, como condição de funcionamento, o caráter plurívoco (multissêmico). Portanto, “não é possível significar sem refratar. Isso porque as significações (...) são construídas na dinâmica da história e estão marcadas pela diversidade de experiências dos grupos humanos, com suas inúmeras contradições e confrontos de valorações e interesses sociais” (p.50).
Além disso, Bakhtin utiliza a expressão vozes sociais (ou línguas sociais) para nomear as inúmeras refrações do objeto, encarando-as como “complexos semiótico-axiológicos com os quais um determinado grupo humano diz o mundo” (p.55). Ainda, conforme Faraco, Bakhtin entende a linguagem “não como um ente gramatical homogêneo, mas como um fenômeno sempre estratificado (pela saturação da linguagem, pelas axiologias sociais, pelos índices sociais de valor”. (p.55). Acrescenta que com a criação da Sociolinguística somou-se à estratificação social e espacial uma terceira capaz de estabelecer uma relação sistemática entre as formas gramaticais e a estrutura social, o que possibilitou a compreensão da língua como “um conjunto indefinido de vozes sociais – que caracteriza a heteroglassia (ou plurilinguismo)” (p.56). Faraco salienta que Bakhtin prioriza a dialogização dessas vozes, a dinamicidade semiótica, apresentada em três distintas direções: todo dizer orienta-se para o “já dito”; é orientado para a resposta; é dialogizado internamente.
A seguir, Faraco esclarece que para o Círculo importa menos o diálogo em si e mais o que ocorre nele/a partir dele, isto é, a interação social, o que Voloshinov denomina “colóquio ideológico em grande escala” ou “simpósio universal”, conforme Bakhtin. Salienta, por isso, que a valorização das práticas cotidianas e a proposição das duas esferas: ideologia do cotidiano e sistemas ideológicos constituídos, como interdependentes favorecem uma teoria sociocultural sem desprezar o cotidiano e supervalorizar as esferas mais elaboradas. Assim, “Não se perde uma fragmentação empiricista, nem se condena ao determinismo inexorável de grandes estruturas” (p.62).
Outro conceito do Círculo, apontado por Faraco, é o das relações dialógicas, isto é, relações entre índices sociais de valor, de sentido estabelecidas através dos enunciados ou no interior deles (bivocalidade). Também fala sobre a metáfora do diálogo que permite a compreensão acerca dos estudos do Círculo sobre a linguagem e a criação ideológica de amplo modo. Igualmente relevante para melhor apropriar-se do pensamento do Círculo é atentar para a chamada “utopia bakhtiniana”, ou seja, “a idéia de que a vida humana é por sua própria natureza dialógica”. (p. 73). Afinal, conforme Bakhtin “ser significa se comunicar, significa ser para um outro e, pelo outro, ser para si mesmo” (p.73). Dessa forma, tem-se nesse trecho a marca do posicionamento de Bakhtin, contrário ao monologismo e favorável ao diálogo em sua plenitude, como elemento que preserva a liberdade dos sujeitos, respeitando os seus posicionamentos através de “uma relação em que o outro nunca é reificado; em que os sujeitos não se fundem, mas cada um preserva sua própria posição de extra-espacialida e e excesso de visão e a compreensão daí advinda”. (p.74).
(Marice Fiuza Geletkanicz)


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