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fevereiro 21, 2012

Antes que o Mundo Acabe, de Marcelo Carneiro da Cunha (Literatura Infanto-Juvenil)


Antes que o Mundo Acabe, de Marcelo Carneiro da Cunha, relata uma trama contemporânea, através de uma narrrativa autodiegética. Apesar de o local em que se passa a história não ser mencionado, percebemos, através do texto e das fotografias, que o palco dos acontecimentos é a cidade de Porto Alegre. Os personagens da obra são: Daniel (protagonista), Daniel (pai biológico), a mãe de Daniel, Antônio (padrasto de Daniel), Lucas (melhor amigo de Daniel), Mim (namorada de Daniel), Strossmann (desafeto de Daniel), Vó Miló (avó de Daniel).

A história tem início com o relato do problema pelo qual passa o amigo de Daniel, Lucas, que morava em um orfanato e foi adotado por uma família de condições financeiras precárias. Lucas carrega consigo marcas de um passado e de uma vida de sofrimento. Quase tudo que acontece de errado na escola onde Daniel, Mim e Lucas estudam recai sobre os ombros dele como, por exemplo, o roubo dos objetos que sumiram do laboratório de ciências e que resultaram, por fim, na sua expulsão do colégio. Paralelamente a esse fato, Daniel começa a receber cartas do pai que ele sequer conhece pessoalmente e que é um fotógrafo residente na Tailândia. As cartas que Daniel recebe após quinze anos de ausência do pai vêm com uma série de informações sobre as razões pelas quais o pai dele tomou a decisão de deixar a vida com ele para seguir a careira de fotógrafo. Daniel reflete e acaba por entender que o seu pai não o abandonou e que havia um ideal muito forte por trás daquele grande fotógrafo. Uma frase que resume bem a posição do pai de Daniel é quando ele explica ao filho sobre a conversa que teve com a mãe: “Eu disse a ela que também já tinha uma decisão. Que eu não tinha absolutamente nada contra um filho. Mas que tinha absolutamente tudo contra ser um pai”. (p. 80). E, realmente, são coisas bem distintas. O pai dele não tinha nada contra ele, porém ser pai, naquele momento, efetivamente, seria um problema. Explica, com uma pitada humorística, que ele não suportaria ver um filho torcendo para o inter ou ainda sendo “metaleiro”, evangélico, entre outras características que ele temia que o filho apresentasse. À medida que eles vão se correspondendo, Daniel vai se familiarizando com a realidade, a vida, a personalidade do pai. Ele também interage com sua namorada, sua mãe e o padrasto (pelo qual sente profunda afinidade) sobre o conflito que é descobrir este novo pai após tantos anos. Através das cartas, o pai de Daniel fala sobre a paixão pela fotografia, sobre o projeto no qual está trabalhando, denominado Antes que o Mundo Acabe, e da doença que contraíra na Ásia, a malária. Daniel, o filho, começa a identificar-se com a profissão do pai e, por sua conta, passa a fotografar algumas situações do seu cotidiano para enviar ao pai que ao recebê-las não se conteve de emoção.  Mal sabia Daniel que as suas fotos ajudariam o melhor amigo, Lucas, a retomar a sua dignidade perante a comunidade, pois como citado inicialmente, Lucas era o principal suspeito dos furtos na escola há muito tempo, acontece que certo dia, Daniel percebeu que em uma das suas fotografias registrou a imagem de um garoto muito parecido fisicamente com um dos monitores, que tinha acesso livre às dependências do laboratório, e que naquele momento deveria estar trabalhando nele, mas, na realidade, não estava. Assim, ficou confirmado o verdadeiro autor dos furtos, Strossmann. Inconformado com acusação injusta sofrida por Lucas, Daniel propôs à direção da escola que fosse feito um pedido de desculpas formal, em público, no auditório, para que a comunidade pudesse compensar o menino por todo o constrangimento sofrido, o que de fato ocorreu. Após, Daniel contou ao pai que as suas fotos ajudaram a esclarecer o caso do seu amigo, Lucas. O pai de Daniel, ainda mais emocionado, envia de presente para o filho o colete que possui o emblema do projeto Antes que o Mundo Acabe, uma câmera profissional e, em seguida, entra em contato telefônico com a mãe de Daniel a fim de conseguir permissão para viajar com o filho ao México para continuarem juntos o trabalho com fotografias que integra o projeto. Assim, o pai de Daniel, anos mais tarde, vê que o filho tornou-se uma pessoa com ideais muito semelhantes aos seus e, para sorte de ambos, conseguiram criar um belo vínculo “antes que o mundo acabasse” para um deles,


Antes que o Mundo Acabe

Marcelo Carneiro da Cunha



A obra, narrada em primeira pessoa pelo narrador-personagem, Daniel, além de ser transmitida através de uma leitura simples, próxima da oralidade, dinâmica, com muitos diálogos, possui uma diversidade lingüística riquíssima ao reunir, relacionar e incorporar à sua linguagem gêneros distintos, como o texto em forma de carta e a fotografia. Por essa razão, certamente, uma narrativa inovadora, envolvente e que por entrelaçar temas atemporais presentes “ao lado e do outro lado de nós” cativa-nos desde o primeiro momento, fazendo-nos refletir acerca das adversidades sociais inseridas na pluralidade cultural existe neste mundo, como o próprio título da história adverte, “antes que ele acabe”.

Nosso personagem principal, como vimos, é um adolescente, portanto, a trama é repleta de aventuras, situações conflitantes, perturbadoras, que marcam o período de transição que envolve a puberdade. O público infanto-juvenil identifica-se com a obra ao deparar-se com uma linguagem próxima da realidade do seu cotidiano e do seu universo interno e que se dá através dos diferentes envolvimentos entre os personagens e os acontecimentos que ao longo da história sucedem e que, especificamente, em Antes que o Mundo Acabe estão sendo representados, por exemplo: pela gravidez que não fora planejada; pelo reaparecimento do pai de Daniel após quinze anos sem dar notícias; pelo convívio de Daniel com uma família fora dos padrões tradicionais ditados pela sociedade, composta por uma mãe chorosa, uma avó rígida e um padrasto afetuoso, fraterno; pela relação sentimental não correspondida pela garota, Mim, a qual Daniel apaixonara-se; pelo laço de amizade entre Daniel e o menino Lucas, que não faz parte do mesmo nível social dele; pela falta de afinidade que Daniel sente por determinadas pessoas ou perfis de personalidade como o de Strossmann; por debater sobre os delitos praticados pelos dependentes químicos para custear o consumo de drogas (também representado pela figura de Strossmann); pela falta de engajamento de Daniel dentro de uma instituição de ensino que, inicialmente, aparentava posturas preconceituosas; por apresentar o tema da globalização através de exemplos variados como, por exemplo, a tecedeira que leva uma semana para produzir o que uma máquina moderna faz em uma hora ou, ainda,  quando o pai de Daniel pergunta se já há um Carrefour construído no local onde ficava um botequim; pelo próprio processo de amadurecimento que Daniel começa a construir através do envolvimento afetivo com o pai.

Injustiças, preconceitos, diferenças, medos, confusões, inseguranças, confrontos, o desconhecido, rejeição, abandono, mentiras, verdades, realidade, carências, paixão, amizade, família, amor, emoções. Enfim, são inúmeras as situações em que o leitor irá identificar-se, pois delas surgirão tantas outras como conseqüência e que tomarão forma em nossas ações, nossos pensamentos e sentimentos, isto é, neste misto de emoções que permeia nosso mundo interno e externo, a visibilidade sobre nós como indivíduos e sociedade, a consciência sobre o Eu como base e essência num mundo que nunca irá acabar se soubermos lidar com ele e com nós mesmos, porém, isso só será possível, como a obra justamente remete e instiga, se soubermos ver de verdade. Você consegue? Consegue ver mesmo? Façamo-nos esse questionamento, sempre, a cada novo amanhecer para que possamos realmente enxergar mais e sempre!


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(Marice Fiuza Geletkanicz, 2008)

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