No Mestrado em Letras nós lançamos um "provérbio": “não existe o Adão da palavra". Acredito que em muitas coisas da vida acontece o mesmo e a dança pode ser um exemplo. Penso que todas as bailarinas, ao longo de sua trajetória na dança, absorvem muito de outras, sejam elas colegas talentosas, professoras de aulas regulares, nomes célebres da arte. Parece-me que esse olhar captura, de alguma forma, o que lhe serve como especial fonte de inspiração. Quantas vezes ao assistirmos a Giovana Argenta dançar lembramos de algo da Priscila Fontoura? Quantas vezes vemos as apresentações das colegas nas nossas confraternizações e percebemos habilidades que nos fazem recordar passos que também são executados por excelentes renomadas bailarinas? Certamente, tanto a "Pri"quanto a Giovana, a profe Hannya e as grandes divas da dança se espelharam (e espelham) em alguém. Elas também passaram pelo estágio de aprendizado em que nos encontramos; imagino que também assistiram a vídeos, fizeram passos que pareciam impossíveis de realizar, como, às vezes, nós pensamos, e até reproduziram passos de outras bailarinas, o que não significa mera cópia, banalização, mas, sobretudo, capacidade de superação e é isso o que as diferencia e que nos faz admirá-las a cada dia mais, pois elas souberam, durante esse processo ininterrupto de aprendizado, descobrir e aperfeiçoar a sua técnica em sintonia com o seu estilo. Penso que, para chegarmos a ele, é necessário, em termos técnicos, digamos, muito estudo, dedicação; já em termos subjetivos, parece-me primordial mesmo entregar-se por inteiro à dança, ao que ela transmite, nos faz sentir, pois é ela que nos conduzirá, naturalmente, respeitando o nosso tempo e nossos limites, a essa “conquista” inebriante do nosso estilo. Acredito, sim, que é uma conquista, porque exige uma busca interna muito intensa que, apesar de perdurar pela vida toda, não deixa de refletir o melhor que há em nós quando dançamos. Acredito que é aí que nos transformamos, que é aí, justamente, que nos descobrimos verdadeiramente e podemos presenciar o mais belo eclipse existente no mundo: o encontro da dança com a bailarina que, independente do nível, seja básico ou avançado, já habita dentro de cada uma de nós!
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